31.1.12

Bárbara.


Bárbara foi minha amiga por tantos anos que já não sei precisá-los sem perder a conta. Conhecemo-nos na faculdade, durante uma aula empolgante de Morfossintaxe que apenas Bárbara conseguia definir como tal. Empolgante mesmo era seu sorriso cheio de cores e sua voz trêmula da pressa de comunicar a resposta correta. Bárbara sempre tinha as respostas corretas para tudo.
Mas, muito mais do que acertar o local daquela vírgula arrogante, ela acertava em apenas ser. Olhávamos para Bárbara e só víamos algo muito próximo à perfeição. Sua vida vai transcorrer sem grandes turbulências, frequentemente comentávamos na rodinha de amigos que se formava no intervalo.
No comentário, contudo, não havia inveja ou desejo de estar em seu lugar. Havia mesmo um orgulho e uma felicidade intensa por alguém tão incrível, tão preenchido de vida, tão cheio de cores. Bárbara merecia o melhor, e a vida não seria justa se lhe desse menos. Felizmente ela cumpriu seu papel e Bárbara triunfou em todos os projetos em que resolveu tocar. Ela e seu complexo de Rei Midas... Tudo virava ouro quando sentia seu toque.
Um dia, porém, recebi um telefonema que me tirou o chão. Era Bárbara. Sua voz, que estava trêmula por um tipo diferente de ansiedade, imediatamente deixou-me preocupada.
- Preciso falar com você - ela disse.
- Claro. Estou a caminho de uma reunião agora, mas podemos nos encontrar...
- Não! Preciso falar com você agora.
Sua voz perdeu toda a doçura ao pronunciar aquela última palavra e isso me intrigou.
- Tudo bem, eu... Está acontecendo alguma coisa? Você parece transtornada...
- Transtornada? É um jeito de dizer.
- Bá, o que está havendo? Fala comigo.
- Eu vou falar. Finalmente, vou falar. Você me escuta?
- Sempre - murmurei.
- Hoje eu descobri uma coisa que me deixou aterrorizada.
- O quê?
- Só me deixa terminar antes que eu perca a coragem, tudo bem? Eu... Lembra daquele dia em que fomos à casa dos meus avós e decidimos nadar sem roupa no lago? - Percebi que Bárbara estava em seu próprio mundo e que a pergunta não exigia resposta. Calei-me. - Olhar para você naquele dia foi estranho. Eu poderia facilmente te encarar para sempre, mas ao mesmo tempo eu sentia uma sensação de que aquilo era errado de alguma forma. E esse foi o primeiro dos muitos dias em que eu precisei lutar comigo mesma para manter meu olhar em seu rosto, seus olhos... Te olhar nos olhos é bom, sabe? Quase como se você me entendesse por completo, sem necessidade de explicação. Mas os anos foram se amontoando e eu fui me perdendo nessa luta comigo mesma. Presenciei o começo e o fim de seus mil e um amores, apenas esperando a brecha, por mínima que fosse, pela qual o meu amor finalmente pudesse alcançar seu coração... - ela suspirou de maneira tão profunda que eu pude distinguir o som perfeitamente. - Agora você pode enfim me perguntar o que foi que eu descobri.
Fiquei calada. O choque daquela revelação e da aparente calma com que ela estava sendo feita, atingiu-me muito mais forte do que qualquer raio poderia fazer. Eu tinha medo de entender as implicações de tudo aquilo e ainda mais medo de dizer a coisa errada e acabar colocando um fim na única amizade verdadeira que eu havia experimentado na vida.
- Eu realmente quero ouvir a pergunta - ela murmurou após um longo minuto de silêncio. Eu não tinha certeza se minha voz soaria normal, ou mesmo se soaria.
- O que você descobriu hoje, Bá?
- Que ela nunca vai existir. Aquela brecha.
- Bárbara...
- Eu sei, eu sei. Eu não deveria ligar para você em uma terça-feira qualquer e despejar tudo isso. Mas adivinha só... Ele me ligou... Guilherme. Ele... Ele quer me levar a uma joalheria... Ele quer que eu o ajude a escolher um anel de noivado para você... Eu sei, eu sei. Eu não deveria estar estragando a surpresa dele, mas você me entende, certo? Eu sei que sim. Como sempre fez. Meu Deus... Apenas esqueça, okay? Esqueça que eu te liguei e esqueça que eu... Apenas esqueça.
- Bárbara? Bárbara! Alô?!
A linha havia sido cortada. Ela já não me ouvia e eu somente viria a descobrir horas mais tarde o quão de verdade essa frase abrigava. Enquanto os policiais procuravam palavras para me explicar o que havia acontecido, tudo que eu via era uma imagem de Bárbara sentada em sua cama desarrumada, falando comigo ao telefone, finalmente descortinando sua alma atormentada, e manuseando a arma com a qual tirara sua própria vida minutos depois.
Bárbara sempre fora sinônimo de cor para mim. O mais esquisito, porém, era que eu não conseguia, por mais que tentasse, enxergar cor naquela imagem mental. E eu tentei. Tentei por meses e tentei por anos. Mas nada acontecia, nada mudava. Quando eu pensava naquele dia, a imagem voltava. As cores, porém, não o faziam. Não o fizeram nunca.


P.S.: Pauta para a 104ª Edição Visual do Bloínquês.

11 comentários:

  1. Nossa haha, AMEI o texto, amei o blog, amei tudo.
    E ainda gosta de Anahí e Glee? OMG to seguindo AGORA! haha.

    Beijos

    Wendell Carvalho
    Something 'Bout Books

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  2. estou sem palavras. acho que esse foi o texto mais expressivo seu que eu já li, bru. e a angústia que ficou desse final, nossa, acho que está até doendo em mim. se é que a angústia dói.
    é um dom saber fazer as letras tocarem fundo assim.

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  3. Adorei o texto, fiquei ate motivada em ler outros, adorei teu espaço, que blog cuti, parabéns! Quero agradecer a visita e pedir que volte mais vezes:
    http://fazdecontatxt.blogspot.com

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  4. Nossa,que texto foi esse? Lindo demais. Já ganhou essa edição!! *-*

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  5. Heey, adorei o seu blog! Estou seguindo, segue o meu também?
    http://estanteseletiva.blogspot.com/

    Beijos,
    Wanessa Guimarães

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  6. Nossa, eu me apaixonei pela história. Senti cada momento, a angústia em cada palavra... Era emocionante saber o que aconteceria depois, mesmo que a imagem delatasse um pouco.
    Consegui enxergar tudo na minha frente, vai ser uma honra competir com você no bloinques *0*
    Boa sorte e parabéns, ficou incrível!

    http://recantodalara.blogspot.com

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  7. merece ganhar.
    simplesmente ameiii.
    Parabéns o texto ficou perfeito.

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  8. A vida de ninguém é perfeita, desatenta e egoísta aquele amigo que acha que é. Adorei o post, superlindo!

    O blog também é muito fofo. :)

    Beijos. :)

    www.jadeamorim.com.br

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  9. Gente, "Bárbara sempre fora sinônimo de cor para mim". Simplesmente fiquei encantada com o seu conto, flor! Parabéns por ter ganho na edição. ^^

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  10. Nossa, que texto lindo! Mereceu mesmo o prêmio do Bloinques *-* Parabéns.

    Beijos,
    Monique <3

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