21.6.13

Lugares favoritos.


Enquanto o resto dos meus amigos pintava o rosto com as cores da bandeira, eu escrevia um cartaz que proclamava uma frase do hino nacional. Ao terminar, examinei minha letra com olhos críticos e achei tudo horroroso, como sempre.
- Pelo menos dá pra ler - Marcela me deu uma falsa cotovelada e voltou a pintar o rosto do namorado de azul.
- Muito engraçado, Cela.
- Deve ser o espírito de mudança que contagiou até a letra dele - Pedro, o namorado, murmurou, mas óbvio que todo mundo ouviu e começou a rir. Tentei ficar sério, mas só tentei.
- Vocês são péssimos - anunciei.
- Conta uma nova - Cela fez uma careta e começou a esfregar as mãos umas nas outras. - Terminei. Estamos prontos. Não quer mesmo um pouco de tinha, Beto?
- Nope.
- Fresco.
- Não preciso estar fan...
- "Fantasiado para protestar". É, já escutamos esse discurso. Mas continua fresco como da primeira vez - Pedro disse.
- Que seja - respondi.
- É, que seja. Pra onde a gente vai? - ele mudou de assunto.
- Está todo mundo caminhando pro centro - Cela informou.
- Então vamos - concordamos.
Começamos a andar, mochilas nas costas e cartazes nas mãos. No caso dos meus amigos, o rosto colorido também era uniforme. Já pra mim, a única cor, além do preto, era minha camisa verde. Eu não me sentia animado, apesar da companhia ou dos gritos que entoávamos. O movimento só estava acontecendo por não termos um país justo e isso pra mim era motivo suficiente de luto. Por isso o preto. Pra combinar com as almas dos milhões de brasileiros.
- Olha ali naquela esquina - Cela sussurrou e apontou para uma menina gritando uma música do Renato Russo. Apesar de tudo, sorri. - Ela não mudou nadinha.
- Não - concordei.
Continuamos a andar, passando pela menina e seguindo em frente. Depois de uns quinhentos metros, senti uma mão segurar meu braço.
- Alberto.
- Renata.
- Não sabia que você viria à manifestação - ela sorriu.
- Nem eu - me referi à presença dela. Ela pareceu entender e sorriu ainda mais. Ela sempre entendia tudo o que saía da minha boca, por mais sem sentido que fosse.
- Não combina comigo, é?
- Pelo contrário, Rê. Só achei que fosse te encontrar lutando pelo nosso país em outras estâncias: reuniões com o prefeito, com o empresário de transporte, com...
- Beto - ela riu. - Sou apenas uma estudante como você.
- Mas você sabe negociar melhor do qualquer pessoa que eu conheça - dei de ombros.
- Obrigada.
Observei seu rosto e vi que ela realmente ficou surpresa com o elogio. Afinal, já fazia muito tempo que eu não a elogiava. Aliás, já fazia tempo que não tínhamos nada para dizer um ao outro.
- Gostei da música - apontei para o caminho que havíamos percorrido e ela sorriu, olhando para trás.
- Meio que resume tudo, não é?
- É.
- Reparou na esquina?
- Reparei - respondi devagar, meio incerto de que fosse a coisa certa a se fazer.
- Meu lugar favorito no mundo todo - ela sorriu, ajeitando os óculos e voltando a abrir o cartaz que segurava. - A gente se vê?
- Claro - respondi, mas sem nenhuma vontade de vê-la partindo. Mas ela se foi. De novo. Só que, dessa vez, não fiquei observando seus passos como da última vez. Não. Ao invés disso, olhei para a tal esquina onde a vira cantando. Era a mesma na qual havíamos nos conhecido.


6 comentários:

  1. Admito, passei o texto tentando adivinhar qual era música. Qual era a música, Bruna?
    ~fim do momento Silvio Santos~

    Não sei bem o que achei da revolta como pano de fundo pro amor que acabou (ou não). Fiquei procurando simbolismo, mas minha mente já entrou em pane com tudo isso.
    Suave, tho. Por que não é só por que as coisas acabam que as memórias e os lugares tem que ser ruins.

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    Respostas
    1. era mais o amor como pano de fundo pra revolta x)
      e a música é six degrees of separation, the script <3 #love

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    2. mas não era Renato Russo? O:

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    3. Bruna menina, ainda não tô tão maluca assim yagsya "Cela sussurrou e apontou para uma menina gritando uma música do Renato Russo. Apesar de tudo, sorri."

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    4. ah, a música DO texto hahaha pensei que fosse a que sempre vem no final. desculpe a lerdeza característica, hahaha.

      e a música é "perfeição" (:

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